No terceiro dia do Fórum Nossa São Paulo, o grupo de trabalho sobre educação enfatizou a importância do Plano Municipal de Educação, durante exposição de propostas.
Participando da mesa de apresentação das proposições, Maria Alice Setúbal, socióloga e diretora do Cenpec (Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária) destacou a necessidade do projeto. “O plano municipal é importante para não ter descontinuidade da política” afirmou.
Sérgio Haddad, coordenador geral da Ação Educativa, acredita que as demandas apresentadas fornecem uma boa base daquilo que será considerado na elaboração da política educacional. “Nós já temos uma boa base para construir um plano municipal”.
De acordo com Maurício Broinizi secretário-executivo do Instituto São Paulo Sustentável, os anseios também vão ao encontro do que a Secretaria Municipal de Educação precisa fazer. “Uma demanda que contempla quase todas as demandas é o Plano Municipal da Educação”. Para Broinizi, a elaboração de uma política de diretrizes municipais é um instrumento para a concretização das outras reivindicações.
Quatro eixos nortearam as propostas apontadas pelo grupo de trabalho. Gestão e financiamento, mapeamento e atendimento das demandas educacionais, qualidade social da educação para crianças e adolescentes e qualidade social da educação para jovens e adultos foram as principais áreas apresentadas.
Dentre as propostas, destacam-se reivindicações por construção de escolas e universidades, ampliação de vagas na rede pública, criação de disciplinas relacionadas à cidadania, como Ética, e às raízes culturais do país, como História e cultura afro-brasileira e indígena.
“Esse evento é o resultado de uma ampla discussão e mobilização, houve uma participação efetiva de diferentes setores”, ressalta Maria Alice. Já Haddad não vê novidades nas proposições, mas considera que elas mostram exatamente o que tem de ser feito. “O que está lá [nas propostas], em grande parte, são coisas que a elite já tem”. Para o coordenador da Ação Educativa, as demandas apresentadas são básicas, mas fundamentais. “São um direito humano, direito das pessoas terem qualidade”.
A mesa trouxe também anseios de crianças e jovens da periferia. Jéferson, aluno de ensino médio da rede pública, relatou as demandas dos estudantes. Uma das principais propostas é a obrigatoriedade da disciplina de educação sexual nas escolas. Jéferson frisou que a inclusão do tema deve dialogar com as necessidades dos jovens. “Nunca é muito saber sobre a saúde da gente, mas isso precisa ter continuidade, ter profissionais qualificados”, reivindica.
Ensinar é aprender
Ensinar não é transmitir conhecimentos. O educador não tem o vírus da sabedoria. Ele orienta a aprendizagem, ajuda a formular conceitos, a despertar as potencialidades inatas dos indivíduos para que se forme um consenso em torno de verdades e eles próprios encontrem as suas opções.
A etimologia revela que o substantivo aprendizagem deriva do latim “apprehendere”, que significa apanhar, apropriar, adquirir conhecimento. O verbo aprender deriva de preensão, do latim “prehensio-onis”, que designa o ato de segurar, agarrar e apanhar, prender, fazer entrar, apossar-se de. Ensinar - palavra latina insignīre, quer dizer “marcar, distinguir, assinalar”. É a mesma origem de “signo”, de “significado”.
A principal meta da educação se processa em torno da auto-realização. Logo, ela propõe a reformulação constante de diretrizes obscuras para alcance dos objetivos, comprometidos com a valorização da vida. A educação carimba a sociedade que deseja ter!
O professor, como agente de comunicação, transformou-se num dos mais pobres recursos e dos mais ricos. Quando se imagina dono da verdade, rei do currículo, imperador do pedaço, mendiga e se frustra. Quando se apresenta cheio de humildade, de compreensão e vontade de aprender, resplandece e brilha! Os estudantes estão abastecidos por uma carga de informações cuja capacidade de assimilação nem comporta. O ser humano tem potência de semideus, com emoções de mortal. O avanço da era espacial em que vive tornou o homem angustiado pela consciência de sua fragilidade para absorver e superar os desafios à sua volta.
É mister que se reestruture o conceito de Escola ou se reconheça a sua derrota. Os que nela atuam não podem continuar a caminhar distantes da realidade, em marcha lenta, alheios à corrida veloz de um planeta visível, palpável e cada vez mais próximo. Do jeito que alguns se comportam, concorrem para o fracasso. Repetindo uma expressão muito antiga, “a Escola não sabe a força que ela tem”.
Deve-se abolir, de imediato, a cultura do supérfluo, selecionando conteúdos mais significantes e atuais. Não se pode contribuir para que o desinteresse se instale e, conseqüentemente, esvazie o espaço da aprendizagem permanente. O educador deve se preparar para estar apto perante a onipotência da máquina, e não se assustar com a sua eficiência. Estar sempre atento aos transbordamentos da ciência e não se embrutecer na resposta.
De que valem as “reformas” educacionais, se mudanças radicais não ocorrem? Elas passam, os problemas maiores continuam, gerações se substituem e, no universo de perguntas não respondidas, resultados positivos não se operam, muitas vezes.
Os enlatados culturais intoxicam como os outros, se transformam em “pacotes culturais” e saem por aí, empacotando a sensibilidade, a criatividade, que tanto contaminam a educação. Um exemplo? Entende-se barulho como música! Poesia como cafonice, família como utopia, Pátria como sucata.
Quem ama educa, educar é educar-se a cada dia, sem a pretensão de preparar para a vida. O poder de adivinhar o futuro o educador não o possui. Ele orienta, para que, em situações imprevisíveis, se processem alternativas. Educar não é ensinar, é aprender.
Ivone Boechat