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Descobrir a Amazônia - 2008

amazônia é complexa, os especialistas sabem muito pouco, e os jornalistas sabem menos

Na maratona de encontros do projeto Repórter do Futuro para refletir sobre a Amazônia, recebemos ontem (16), na Oboré, convidados muito especiais. Pela manhã e até o início da tarde, a reunião teve picos intelectuais formidáveis e uma conexão sincera entre entrevistadores e entrevistados.

Rolou uma naturalidade que eu havia acreditado não ser possível quando, durante conversa no café da manhã, um dos palestrantes comparou jornalistas a escorpiões. Como se fosse da “natureza” dos profissionais da imprensa “picar” todas as suas fontes.

É que Alexandre Pessoa teve experiências ruins com essa gente das canetas, que geralmente sai apressada das redações para colher dados sobre um assunto mais complexo do que parece ser, a Amazônia. Tema vulnerável a interpretações equivocadas, detectadas principalmente pelos olhares clínicos das academias.

Químico e geólogo, especialista na floresta e formado em uma universidade alemã cujo nome tem mais consoantes que vogais, Pessoa disse, no passado, frases que foram entendidas de maneira errada. Sua frustração com jornalistas é suficiente para que prefira, hoje, não dar entrevistas. Tanto que ficou acertado que teríamos ali uma conversa, não uma coletiva de imprensa, como é normal nos cursos da Oboré.

Mas era só fachada. O cara é a simpatia disfarçada de cientista. Respondeu a todas as nossas perguntas, falou abertamente sobre assuntos delicados e até prometeu a cópia de um estudo seu que nunca foi publicado, devido a motivos “maiores” (não dá para ser mais específico).

Com o microfone apoiado na barriga, relógio ultra-biônico no punho esquerdo, paletó preto de botões dourados e camisa azul-motorista, Pessoa falou sobre os projetos em que participou na Amazônia, como o Poconé (1989-1991), para o qual coordenou o grupo de estudos biogeoquímicos. Citou também diversas empreitadas que, pós 1964, aceleraram o crescimento nos Estados do Brasil setentrional, como o Projeto Calha Norte, a exploração de minérios em Carajás e a construção das rodovias Belém-Brasília e Cuiabá-Santarém, para ficar apenas em alguns exemplos.

E aprofundou a palestra em tantas outras questões que, devo confessar, as informações ficaram ricas e detalhadas demais para o meu modesto bloquinho, ainda conhecendo a imensidão do tapete verde. Sem medo de ser feliz, posso dizer neste blog que, depois de sair ontem da Oboré, pensei no quanto teria que estudar para poder escrever um texto mais ou menos completo sobre os assuntos da reunião.

Percebendo que não teria tempo de fazer isso antes de embarcar para a floresta, optei por redigir um registro incompleto mesmo – mas sem deixar de avisar ao leitor. Porque não se trata apenas de anotar tudo e depois reproduzir. É preciso entender e revelar os vários lados de um mesmo objeto – e a Amazônia tem muitíssimos.

Ah, talvez seja legal dizer aqui que, pelo menos para mim, não sei vocês, um Repórter do Futuro reflete sobre o jornalista de hoje enquanto se prepara para ser o de amanhã. Claro que, na correria rotineira da profissão, erros aparecem. Mas acredito que a maioria dessa gente das canetas não é (ou pelo menos não quer ser) como os escorpiões.

Equívocos
E olha só, há detalhes que geralmente erramos e para os quais é mais fácil atentar. No quesito “indígenas no Brasil”, por exemplo, pode ser simples evitar alguns equívocos, como nos lembrou Rogério Pateo, um cara legal que falou depois de Alexandre Pessoa e usa óculos, barba, bigode e uma tatuagem de caveira no braço, que quase ninguém viu porque ele estava de blusa de manga comprida. Hmm, ele também é antropólogo e trabalha na equipe de monitoramento de áreas indígenas brasileiras do Instituto Socio-Ambiental.

Pateo lembrou que o Estado não “dá” terras aos povos indígenas, como ele costuma ler por aí, mas apenas “reconhece”, do jeito que está previsto no artigo 231 da Constituição Federal de 1988. Da mesma forma, é bom evitar escrever “índios” como categoria genérica, pois cada etnia exibe sua peculiaridade. Quer ver?

O Brasil tem 227 povos indígenas. Essa turma fala 180 línguas ou dialetos diferentes. Mais da metade dessa galera resiste em populações com até 1.000 indivíduos. Habitam, principalmente, os Estados amazônicos. Há hoje cerca de 40 referências de povos vivendo em isolamento voluntário, longe de qualquer civilização. “Ou autônomos, como eles preferem dizer”, disse Pateo.

As terras indígenas representam quase 13% da área total do País e foram demarcadas, via de regra, depois de 1988, de acordo com o antropólogo. Uma dica das boas para tentar não falar besteira sobre esse tema é sempre consultar o recheado site do Instituto Socio-Ambiental.

A entidade, importante agente para as questões amazônicas, existe desde 1994 e tem um orçamento anual de R$ 15 milhões, financiados principalmente por investidores estrangeiros (80%), entre os quais se destacam Noruega, França e Estados Unidos.

Sustentabilidade
Outro órgão que desponta desde o fim do ano passado como articulador do desenvolvimento amazonense é a Fundação Amazonas Sustentável, que tem escritórios em Manaus (AM) e São Paulo (SP), e trabalha com uma verba inicial de R$ 40 milhões – metade financiada pelo governo do Estado do Amazonas e o restante pelo banco Bradesco.

A instituição também estava ontem na mesa do Repórter do Futuro, representada pelo biólogo Gabriel Ribenboim, de óculos, barba jovem e ruiva, paletó preto e camisa branca, além de um aparato tecnológico de causar inveja: iPhone, notebook, celular, pen drive e um laser para ajudar na apresentação dos slides.

Ele mostrou, entre outras atribuições do projeto, a Bolsa Floresta, lançada em março deste ano. A iniciativa promete R$ 50 mensais para as famílias que se comprometem a não desmatar mais a região onde vivem. O benefício é acumulado em um cartão de crédito da Mastercard e pode ser retirado nas agências do Bradesco.

Por meio de oficinas, a Fundação também procura formar novos agentes ambientais, importantes para articular assuntos de sustentabilidade na floresta. O objetivo é atender 9 mil famílias amazonenses nas 34 unidades de conservação do Estado. Hoje, são 2.500, e a expectativa é de que esse número suba para 4.000 até o fim do ano. A maioria dos moradores, vale dizer, vive na beirinha do rio Amazonas. A distância entre uma casa e outro pode ter quilômetros, e o único meio de transporte é o barco.

Fim
(uma vez me disseram pra não fazer textos longos na web. E esse já foi.)

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