O problema deu as caras pela primeira vez nas reuniões de pauta feitas antes da viagem: a programação, inteiramente planejada pelo exército, não daria brechas para fazermos todas as pautas que havíamos imaginado na Amazônia. Riscamos da lista, então, algumas mais complexas, mas mantivemos aquelas possíveis de encaixar na programação. A idéia de fazer uma matéria sobre os impactos sociais da construção da hidrelétrica de Tucuruí, por exemplo, sobreviveu.
Estava na programação: iríamos conhecer as instalações da usina e falar com representantes de Eletronorte, empresa responsável pela obra. Cerca de uma semana antes de partirmos para cá, fiz o primeiro contato por telefone com os militantes do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) de Tucuruí. A idéia de conversar com o grupo parecia bastante óbvia para tornar possível a reportagem em questão.
Achei que daria para encaixar uma entrevista com o líder local do MAB, Roque Van, durante um “city tour” pela cidade de Tucuruí que estava previsto no programa. Ficou combinado, então, que ligaria para a secretaria do movimento na terça-feira, quando estivéssemos na cidade, para combinar um jeito de encontrá-lo.
Na terça-feira, logo de manhã, chegamos ao 23° Esquadrão de Cavalaria da Selva. Lá, recebemos uma carta com a nova programação do dia e, nela, uma surpresa: o city tour da tarde havia sido suprimido devido à necessidade de partir mais cedo para Belém, em um avião que não poderia decolar após o anoitecer.
Diante do imprevisto, comecei a pensar em alternativas para a entrevista, ainda que tivesse que pedir para alguém do movimento vir até a comitiva Exército-Oboré. Isso em si já seria um problema, porque tanto as instalações do exército quanto a usina são fora da cidade, onde fica a secretaria do movimento. Era necessário então contar com a boa vontade e interesse dos militantes.
Assim, saí uns minutos durante a palestra do major Pfaender, do 23° Esquadrão, para perguntar para Roque Van se ele toparia vir até a gente, onde quer que estivéssemos, mediante autorização do exército. A partir da afirmativa, fui tentar falar com o major, cuja apresentação deu bastante destaque aos movimentos sociais com os quais o braço local do exército lida.
No slides projetados, uma série de ingredientes foram apontados como fomentadores desses movimentos na região. Eram exatamente estes: vazio demográfico, ausência do Estado, questões indígenas e ambientais, recursos naturais abundantes, interesses comerciais em grande escala e a Constituição de 88. Entre os principais movimentos catalogados pelo exército, estavam associações de moradores de bairros, colônias de pescadores, a Via Campesina, o MST os “Sem Tora” (desempregados pelo cerco ao desmatamento clandestino) e, claro, o MAB.
Sobre esse último, o major se demorou mais diante das dúvidas dos estudantes. Falou, buscando a maior imparcialidade possível, sobre a ocupação da hidrelétrica pelos militantes no ano passado, após um protesto que a polícia tentou reprimir. Para pressionar a retirada dos militantes, o exército foi chamado a intervir. “Para questões internas, a ordem de atuação do exército tem de vir por um canal hierárquico onde quem dá a última palavra é o próprio presidente da República”, explicou o major, traçando os limites da atuação militar nesse tipo de ocorrência.
Depois da palestra, fui falar com o major, para ver a possibilidade de Roque Van nos encontrar na própria hidrelétrica durante a tarde. Ele me explicou que tal autorização não cabe ao exército, mas à Eletronorte, e que o processo era um pouco mais burocrático do que eu podia enfrentar no momento. Opção descartada, portanto.
Tínhamos ainda um almoço no clube do esquadrão. Perguntei ao coronel Barboza sobre a possibilidade de receber o militante ali, na área sob responsabilidade do exército, onde a autorização cabia a eles mesmos. Sem sim nem não, o coronel só enfatizou que sairíamos do local impreterivelmente às 13h30 para a hidrelétrica, pois a visita já estava agendada. Ele sugeriu que propusesse encontrar o militante no aeroporto, antes do embarque.
Desisti. Não ia fazer o cara se deslocar da cidade até o aeroporto para, quem sabe, se não atrasássemos durante a visita às instalações da usina, podermos pegar meia dúzia de aspas antes de embarcar correndo para Belém.
Chegando à Eletronorte, liguei para Roque Van para confirmar que a entrevista não ia mesmo existir. Mas qual não foi minha surpresa ao descobrir que ele estava, justamente, em uma reunião nas dependências da empresa. Fiz uma última tentativa: pedi que ele me desse um toque quando saísse da reunião. Aí, dependendo de onde o grupo estivesse, daria para encontrá-lo por lá.
Roque Van não retornou. Ao cabo da palestra, tentei ligar para ele, mas o celular só chamou. Não insisti, pois saímos do local na maior correria (interrompendo, inclusive a parte destinada às perguntas no final da palestra) para que fosse possível visitar a casa de força da usina - lá mesmo onde o MAB se instalou durante a invasão do ano passado. A visita por entre as máquinas foi corridíssima, pois já estávamos atrasados para pegar o avião. Fiquei sem entender as implicações técnicas da usina. As sociais então, nem se fala.
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