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Descobrir a Amazônia - 2008

Sem povos da floresta

É besteira se referir aos habitantes da Amazônia como os “povos da floresta”, já que 70% da população, em média, reside nos centros urbanos. O estado com maior concentração em cidades é o Amapá, com 90%. Rondônia, com 64%, tem o menor índice.

Para explorar mais o tema, conversei com o tenente Aurelício Guedes, que nos acompanhou durante o city tour por Belém. Ele é nascido na cidade, graduado em comunicação social e conhecedor da história local. Na entrevista, busquei revelar alguns aspectos da relação entre a metrópole e os espaços verdes que a rodeiam, na tentativa de descobrir as influências mútuas.

 Que traço do seu perfil é típico da cidade de Belém? 

Acho que é esse amor pela floresta, mato, ervas, árvores… . Eu trago essa cultura desde pequenininho. Foi uma coisa que aprendi com a minha mãe, que aprendeu com os pais. Em casa, por exemplo, eu nem tomo remédio, é só chá.

E que característica pessoal não brotou de Belém?  

Aí entra o lance da minha graduação em comunicação social, porque me levou a ser muito mais universal do que bairrista. Ela me deu uma visão maior para temas em que eu era muito resistente, até mesmo sem saber o motivo da resistência. Hoje eu vejo isso de outra forma. Sei que problemas urbanos que atingem um cidadão comum dos Estados Unidos podem ser os mesmos que atingem um pai de família daqui. 

Como a população local lida com os costumes vindos de fora? 

Você tem uma população que adotou, historicamente, costumes indígenas e estrangeiros. Da parte dos índios ficou o costume de dormir nas redes, a medicina da floresta e a conhecida pajelança das benzeções para curar crianças ou fazer partos caseiros. Já os colonizadores europeus, principalmente portugueses, italianos e franceses, influenciaram mais a arquitetura. Aqui dá pra ver muitas casas germinadas [estilo de edificações coladas entre si] que servem para otimizar a estrutura de aquecimento e manutenção do calor. Nós não precisamos disso, mas tivemos que nos adaptar. A compensação encontrada pela arquitetura foi aumentar o pé direito [distância entre o telhado e o piso das casas] para aumentar a ventilação. Mas com as paredes coladas, o sistema não adianta muito. 

Como seria a arquitetura da cidade se ela tivesse sido pensada segundo as características locais? 

Existem algumas iniciativas nesse sentido. Como a cidade se desenvolveu ao longo da orla, ela barrou a ventilação do rio para a terra. Por isso, um projeto da prefeitura está focado em desobstruir esse espaço, retirar as famílias e as colocar em edificações amazônicas. 

O que é uma edificação amazônica? 

São casas não grudadas, com entradas e portas laterais, além do alinhamento em diagonal. Isso serve para aproveitar melhor a luz e a ventilação. 

E qual a sua posição, como militar, nesse embate entre floresta e metrópole? 

Nós temos pequenos espaços de preservação. Eu participo de um projeto chamado “Bombardeio de Sementes”, que acontece com o apoio das Forças Aéreas na região do rio Tocunduba. A idéia é espalhar sementes e acelerar o reflorestamento nos arredores da metrópole. Na verdade, fazemos um bombardeio pela vida.

 

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