Na manhã deste sábado (16), a TV USP transmitiu ao vivo pela internet, através do sitema IPTV USP, o segundo encontro do módulo Descobrir a Amazônia - Descobrir-se Repórter, do Projeto Repórter do Futuro. Nos próximos sábados, a transmissão pode ser acompanhada pelos internautas na página do Instituto de Estudos Avançados: www.iea.usp.br/aovivo.
Neste sábado, dois especialistas da Universidade de São Paulo falaram aos estudantes no auditório do Instituto de Psicologia da USP. Eduardo Goes Neves, do Museu de Arqueologia e Etnologia, e Ariovaldo Umbelino de Oliveira, do Departamento de Geografia da FFLCH, trataram do tema “Histórias e conflitos na ocupação da Amazônia”. Após as exposições, de 30 minutos cada, os convidados responderam a perguntas dos estudantes. Confira aqui, a partir da próxima terça-feira (19), os relatos dos estudantes.
As apresentações dos palestrantes estão disponíveis no site do IEA: www.iea.usp.br/iea/cursoamazonia/apresentacoes16maio2009 .
Descobrir a Amazônia - Descobrir-se Repórter
No primeiro encontro, dia 9 de maio, o módulo discutiu a importância estratégica da Amazônia brasileira. O geógrafo Wanderley Messias da Costa, professor da USP, traçou um perfil de toda a região, presente em oito países. Para ele “a biodiversidade da Amazônia é uma falácia”, pois falta muita pesquisa para que se conheça verdadeira mente a região. Apenas 10% da flora amazônica, segundo ele, é conhecida e catalogada.
Wanderley também tocou em uma das questões que mais impulsionam o desmatamento na região: a pecuária. Uma pesquisa apresentada pelo professor, mostra que a receita líquida da criação de gado em cidades como Alta Floresta (MT) e Ji-Paraná (RO) passa de R$130 por hectare. Em Tupã (SP), que é uma das cidades tidas como referência da rentabilidade da pecuária no Estado de São Paulo, esse valor é de R$65 por hectare.
O jornalista Washington Novaes, com anos de experiência e livros publicados sobre a Amazônia, foi o segundo conferencista a falar. Ainda no âmbito da estratégia, Novaes apontou diversas falhas no planejamento brasileiro para a Amazônia. “Infelizmente o Brasil não tem estratégia territorial”, disse. Para o jornalista, os brasileiros vivem um momento de “retórica da indignação” e que a situação da região amazônia só vai mudar quando a sociedade “exigir informação e transformar isso em plataforma política”.
Grande parte da infra-estrutura da Amazônia, segundo o jornalista, é voltada para interesses externos. Ele citou a construção da hidrelétrica de Tucuruí (PA) como exemplo, que foi feita em parceria com o Japão para atender à produção de alumínio daquele país. Segundo Novaes, nos primeiros 20 anos da hidrelétrica R$4 bilhões em energia foi subsidiado para a produção do metal. O Brasil produz muito mais energia do que realmente necessita, ainda segundo o jornalista, e é possível economizar até 40% do que é gasto hoje com apagões, repotenciação de usinas e redução de perda na linha de transmissão.
Em suma, os parcos gastos federais na Amazônia não são suficientes para mudar diretrizes. “O orçamento do [Programa] Calha Norte, por exemplo, é ínfimo perto das necessidades”, disse Novaes. A fiscalização também foi criticada: “O Ibama só recebe 11% das multas que aplica”.
Outro profundo conhecedor do tema, o general Eduardo Villas Bôas, ex-Chefe do Estado Maior do Comando Militar da Amazônia, também falou da questão estratégica da região. Para ele, uma das ameaças é a presença intensa de organizações não governamentais naquela área. “A agenda política das ONG’s vem de fora [do país]“, disse.
Após as três conferências, os estudantes fizeram perguntas aos convidados em forma de entrevista coletiva. Em uma delas, Washington Novaes respondeu o que resume o dilema não só da Amazônia, mas do consumo e do lucro no mundo todo, reflexo do modelo econômico adotado atualmente: “Se todo o mundo construisse tanto quanto os Estados Unidos, nós precisaríamos de mais dois ou três planetas, porque não há recursos”.
São cursos de complementação universitária para estudantes de jornalismo realizados há 15 anos pela OBORÉ Projetos Especiais em Comunicações e Artes. Neste ano, o módulo Descobrir a Amazônia - Descobrir Repórter tem como co-realizador o Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (IEA-USP). Em julho, parte dos estudantes viajarão à Amazônia para realizar uma série de reportagens a partir dos debates acesos durante o curso. Sob coordenação do Exército Brasileiro e com apoio da Força Aérea Brasileira, os estudantes passarão uma semana em contato com a cultura e o cotidiano da região.
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