A maior ameaça à amazônia brasileira não é de outros países ou organismos internacionais, mas dos próprios brasileiros, de acordo com o geógrafo Ariovaldo Umbelino de Oliveira, especialista da Universidade de São Paulo em questões relativas à região. Para ele, que há quase trinta anos pesquisa geografia agrágia, estrutura fundiária, territória indígena e conflitos de terra na região, o maior risco hoje é dos grupos econômicos nacionais e não do chamado capital internacional. “Não há conjuntura geopolitica mundial para que se faça processo de tomada da amazonia do brasil no momento”, diz ele. “Há processo de inserção internacional do brasil na economia mundial que garante a nossa soberania”, afirma. O tema foi abordado em palestra organizada pelo instituto Oboré no Instituto de Estudos Avançados (IEA) no último fim de semana.
Não faltam dados para corroborar a afirmação do professor. Ele próprio afirma que maior parte da madeira proveniente de desmatamento ilegal na região - 56% do total produzido - é consumida internamente, principalmente pela região centro-sul, que possui o maior mercado de construção civil. O mesmo também ocorre com a produção de carne da região, de acordo com relatório divulgado em janeiro pelo Instituto do Homem e do Meio Ambiente na Amazônia (Imazon). Estima-se que os frigoríficos que passaram pelo Serviço de Inspeção Federal destinaram 95% da produção para o mercado nacional e 5% para outros países. Além disso, empresas que atuam de forma ilegal na região são majoritamente brasileiras.
O desencontro entre os Ministérios do Meio Ambiente, do Desenvolvimento Agrágrio e a sociedade civil no governo Lula é outro exemplo de como problemas internos ameaçam muito mais a sustentabilidade da amazônia do que uma possível ameaça estrangeira. A falta de planejamento conjunto para região leva a situações como a criação da medida provisória 458 - que permite a venda de terras publicas dando prioridade para aquele que está controloando área. “Ou seja, o patromonio publico será entregue aos grileiros”, diz o professor.
E mesmo em casos de exploração do nosso patrimônio por empresas estrangeiras, como no caso da extração de manganês na Serra do Navio, Amapá, cujas as jazidas se esgotaram na década passada, o professor afirma que “a culpa é de parte das elites locais que aceitaram a lógica da exploração”.
O arqueólogo Eduardo Goes Neves, que trabalha na amazônia desde 1986 concorda com o professor Ariovaldo que a grande ameaça são os brasileiros, não os estrangeiros. “Hoje nós temos condições de trabalhar de igual pra igual com parceiros estrangeiros” disse ele, na mesma palestra no IEA. Nossa soberania não estaria ameaçada e, portanto, seria preciso muito mais buscar cooperação internacional para resolver os problemas do que temer um risco imaginário.
Mostra que nossa conciência ambiental está aquém do prazo de vida da floresta amazônica. É só sentar e rezar…
Muito obrigado, Leticia, muito interessante!
[...] Maior amaça à amazônia são os brasileiros, dizem pesquisadores, por Letícia Mori. [...]