Inicialmente ocupada por grupos de ceramistas nômades, 500 anos antes de Cristo, a Amazônia hoje é alvo de disputas nacionais e internacionais por terras para agricultura e pecuária. No último sábado, dia 16 de maio, o professor Eduardo Goes Neves, do Museu de Arqueologia da USP, e o professor Ariovaldo Umbelino de Oliveira, do Departamento de Geografia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, discutiram o tema “História e Conflitos na Ocupação da Amazônia”, durante a conferência de imprensa do Projeto Repórter do Futuro, no Instituto de Psicologia da USP.
Evidências arqueológicas mostram que existem pessoas vivendo na Amazônia há mais de 11 mil anos, segundo dados do professor Eduardo. “A gente sabe que a Amazônia é ocupada há milhares de anos. A questão é em qual escala nós queremos que essa ocupação ocorra”, ponderou. A partir da análise e do estudo de peças de cerâmica, o arqueólogo mostrou a cronologia da ocupação, que começou com ceramistas nômades, passou por uma fase de sedentarismo, e depois por uma quebra no padrão com o estabelecimento da mobilidade novamente. A existência destas diferentes fases comprova que houve uma grande variabilidade cultural e social no passado.
Quando a questão é a ocupação contemporânea, o professor defende a necessidade de fazê-la em escala local, priorizando os interesses dos pequenos agricultores e dos habitantes da região. “A história é repleta de casos de projetos de grande escala de intervenção que não são sustentáveis”, argumentou, citando como exemplos o Projeto Jari, iniciado em 1967 com o objetivo de criar uma fazenda tropical para produção de celulose e papel, e a Fordlândia, uma porção de terra comprada pelo empresário Henry Ford nos anos 20 para abastecer sua empresa de látex.
O professor Ariovaldo concorda que a preocupação principal deve ser respeitar os direitos da população da Amazônia, para preservar não apenas sua cultura, mas também a própria flora e fauna do território. “É a presença da propriedade privada que abre a brecha para o processo de desmatamento. Isso é o que mostra a história recente da ocupação da Amazônia, dos anos 60 pra cá”, defendeu. É senso comum entre os dois estudiosos que a ocupação em larga escala, pela lógica do agronegócio, apenas contribui para a destruição do potencial natural da área, já que o desmatamento acaba tornando as terras improdutivas, além das pastagens e plantações tomarem o lugar de florestas ricas em biodiversidade.
Segundo o professor Ariovaldo, o agronegócio não compensa, pois não gera tanto lucro quanto se imagina. “O total da renda agrícola do ano passado foi de 142 bilhões de reais. O governo alocou pro agronegócio 78 bilhões de reais de empréstimo. Quer dizer, eles não tão nem duplicando o investimento”, apontou, destacando que a produtividade agrícola no Brasil ainda é muito baixa.
O amplo território amazônico e a pífia fiscalização resultam em negócios baseados na ilegalidade. Questões como a grilagem de terras, o trabalho escravo e o mercado de compra e venda de terras devolutas rodeiam a forma de exploração e ocupação da Amazônia nos dias de hoje. Para citar apenas um dado, 56% da madeira que sai do território é ilegal, o que dá uma idéia da dimensão do problema. O modelo ideal deveria conciliar os interesses econômicos e os ambientais, algo considerado perfeitamente viável pelos professores: basta inverter a lógica atual.
Uma alternativa seria usar como base a própria história da ocupação da região. O professor Eduardo destaca as realizações das populações que viveram na Amazônia antes da conquista. “Elas usavam o fogo e machados de pedra pra abrir as suas roças, e mesmo assim fizeram realizações agronômicas notáveis. Por exemplo, domesticaram a mandioca, uma planta venenosa”, argumentou.
Outro caso a ser estudado é o das terras pretas, um tipo de solo que não perde sua fertilidade com o passar dos anos, e por isso é muito procurado por pequenos agricultores. Com a derrubada das matas, é comum que os solos da Amazônia percam sua fertilidade, mas o mesmo não ocorre com as terras pretas. “Em Rondônia elas tem quatro mil anos e mantém até hoje as condições [de cultivo]”, afirmou o arqueólogo, que concluiu: “Uma série de coisas que podemos aprender com a arqueologia pode ajudar também a nos dar alguns parâmetros para entender a ocupação contemporânea na região”.
[...] Ocupar sem destruir, por Fernanda Carpegiane. [...]