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Descobrir a Amazônia - 2009

Muito mais que um bife

Estudos apontam que a criação de gado no país está diretamente ligada com as mudanças climáticas do planeta

Indispensável no cardápio do brasileiro à carne bovina é um dos alimentos mais ricos em proteínas, vitaminas e minerais como o ferro. Considerada um dos itens mais nobres na dieta humana, a carne bovina é também reflexo de ascensão social, presente, portanto, apenas nas classes mais abastadas da sociedade. Mas você sabe de onde vem essa carne? Estudos recentes revelam uma complexa rede que une nossos hábitos do dia a dia à destruição da Amazônia. Dessa maneira, a carne brasileira tem relação direta com as questões socioambientais que o mundo se vê obrigado a enfrentar hoje para garantir seu futuro.

Atualmente o Brasil ao lado da Austrália é o maior exportador mundial de carne bovina. Nosso rebanho beira a casa de 206 milhões de cabeças de gado, 74 milhões apenas na Amazônia, onde há mais boi do que gente, isso sem contar os inúmeros criadores e abatedores clandestinos. Essa liderança, no entanto, coloca o país entre os principais vilões no combate ao aquecimento global. Para manter esta posição, o setor agropecuário se tornou o principal vetor para a derrubada das matas. A estimativa, segundo estudo realizado em 2008 pelas ONGs Repórter Brasil e Papel Social Comunicação, é de que 78% do desmatamento na Amazônia tenha sido motivado pela pecuária.

O problema ocorre principalmente pela forma predatória como se dá essa expansão pecuária na Amazônia, que utiliza áreas protegidas de proteção e conservação ambiental - pelo menos no papel - para fazer pastos. Primeiro, tratores e motos-serra derrubam tudo que encontram pela frente. Segundo, toda madeira que tenha valor comercial é retirada da floresta, na maioria das vezes de forma ilegal. E, por fim, tudo que restou da floresta é incendiado. Esta última etapa é utilizada pelos criadores para acelerar o processo de troca da mata nativa pelo capim, que servirá de pasto para os animais. Além disso, toda vez que a floresta é incendiada milhões de partículas de dióxido de carbono que ficam armazenadas nas plantas são despejadas na atmosfera, potencializando ainda mais o efeito estufa.

Para o professor e pesquisador Guilherme Leite da Silva Dias, do Depto. de Economia da Universidade de São Paulo (USP), a maneira como se cria gado no Brasil, em especial na Amazônia, proporcionará graves consequências para o futuro do planeta se não for alterada. Uma forma de solucionar o problema, segundo o professor, seria trocar o modelo atual de criação por uma “pastagem intensiva sustentável”, onde a produção é intensificada na área que já foi degradada, principalmente devido à pobreza do solo da região. “A forma de explorar com o desmatamento seguido de queimada exaure o solo em 20 anos. Com a pastagem intensiva sustentável, que inclui também repor a fertilidade do solo, podemos diminuir este período de degradação do solo para 8 anos”, explica.

Dias afirma que do total de pecuaristas do país, 90% permanecem trabalhando de maneira predatória: “Se continuarmos com este sistema de agropecuária na Amazônia, em 20 anos aqueles bois terão comido tudo aquilo”. Guilherme Dias, que já integrou a equipe econômica do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), acredita que algumas medidas econômicas adotadas no passado pelo setor agropecuário causaram custos altos demais para demandas fixas: “Vivemos uma crise de endividamento, principalmente com a distribuição de crédito. Hoje existe muita terra para pouca produtividade e a política de crédito é fundamental para o processo de desenvolvimento”.

Um caso emblemático para ilustrar a expansão da agropecuária na Amazônia é São Felix do Xingu, cidade no sul do Pará, que em 1997 tinha cerca de 30 mil cabeças de gado em uma área de 84 mil quilômetros quadrados, de acordo com o Sindicato dos Produtores Rurais (SPR) do município. Em dez anos, o número passou para 1,7 milhão de animais. No Mato Grosso, os números também impressionam. De acordo com um diagnóstico do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, em 2007 havia 39 frigoríficos funcionando em 24 municípios, somando uma capacidade de abate de 22 mil cabeças por dia. O mesmo estudo identifica ainda seis unidades em processo de ampliação e nove plantas em construção - o que deve dobrar o número de abates.

Outro fator preocupante, mas que ainda é pouco discutido, é que durante o processo digestivo dos bois, grandes quantidades de gás metano são emitidas na atmosfera. O que é pior: o gás metano é 23 vezes mais prejudicial que o dióxido de carbono para o efeito estufa. Dessa maneira, se levarmos em consideração que um boi emite cerca de 58 kg de gás metano por ano, e multiplicarmos este número pela quantidade de bois do país (206 milhões), teremos 10 milhões de toneladas de metano sendo despejadas por ano na atmosfera. Em outras palavras, significa que o setor agropecuário emite a mesma quantidade de carbono que a indústria e o transporte emitiam 1994 no país.

Portanto, fica fácil de entender porque o Brasil já é o quarto maior poluidor mundial, lançando anualmente na atmosfera 1 bilhão de toneladas de carbono e 13 milhões de metano. Para o jornalista e ambientalista Washington Noaves, o problema é muito sério e requer medidas urgentes. “Estamos consumindo cerca de 30% além do que o planeta pode repor. Esses problemas ameaçam a continuação humana no planeta”, afirma Novaes.

O futuro está em nossas mãos

Para pôr um freio no ritmo de destruição do planeta, o consumidor, no entanto, não precisa abrir mão de comer carne, comprar móveis ou usar óleo de soja, mas terá que riscar da sua lista de compras aquelas marcas que insistem em violar princípios éticos e de responsabilidade. O ‘consumo consciente’, que em poucas palavras pode ser traduzido como um consumo com consciência de seu impacto e voltado à sustentabilidade, é uma tendência mundial que tem ganhado espaço no mercado e atraído cada vez mais adeptos, os chamados ‘consumidores verdes’.

Pensando nisso, muitas empresas estão investindo em produtos ecologicamente corretos. São produtos não-tóxicos, feitos de materiais recicláveis, duráveis e com o mínimo de embalagem, ou seja, produtos que procuram extrair a menor quantidade possível de recursos naturais durante toda sua cadeia produtiva, tentando com isso, preservar o equilíbrio natural do planeta. Entretanto, muitas empresas sob este ‘signo verde’ utilizam-se indevidamente desta bandeira para agregar valores aos seus produtos e iludir seus consumidores, fazendo-nos crer que a empresa respeita a natureza.

Por outro lado, o mundo tem discutido maneiras de como comprovar que uma empresa que se diz ecologicamente correta de fato o seja. Surgem, portanto, os selos verdes, as compensações ambientais, os processos de auditoria sustentáveis, ou seja, uma enorme quantidade de nomes e processos para atestar que um produto seja realmente ecologicamente correto. Ao consumidor - principal agente transformador - vale exigir que sua marca respeite a natureza e se enquadre nos novos padrões de produção sustentável.

 

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