A motivação do jovem jornalista Iberê Tenório para se dedicar à cobertura de questões ambientais e da Amazônia veio de experiências pessoais. Nos arredores do sítio do interior paulista onde morou até os 20 anos, via os rios cada vez mais sujos, as construções irregulares destruindo as florestas, os animais cada vez mais raros. “Isso foi me indignando, e acho que esse sentimento de indignação é a principal energia para quem quer ser um bom jornalista”, diz.
Iberê começou a trabalhar com meio ambiente na Repórter Brasil, agência de notícias especializada em cobrir trabalho escravo. “Esse problema está intimamente ligado à destruição do meio ambiente, pois quase sempre ocorre onde a agropecuária avança sobre florestas”, comenta.
Nesse mesma época, o jornalista formado pela Universidade de São Paulo (USP), criou o blog Atitude Verde, que procura discutir decisões ambientalmente corretas que se pode tomar no dia-a-dia. “A idéia foi estimular o exercício da preservação, saindo um pouco do discurso, descobrindo como proteger o meio ambiente dentro do cotidiano”, conta.
Repórter do Globo Amazônia desde de que o site foi criado, em 2008, Iberê acredita que a grande extensão da Amazônia e seu isolamento são os maiores desafios para a cobertura jornalística. Para ele, é importante que os jornalistas não olhem a floresta como “uma folha de alface”, mas que enxerguem os diferentes históricos de ocupação antrópica de suas regiões, a diversidade de fauna e flora que a Amazônia abriga. “Entender e respeitar essas peculiaridades é fundamental”, afirma.
Confira as ponderações e dicas de Iberê Tenório sobre a cobertura jornalística da floresta Amazônica em entrevista para o Repórter do Futuro:
Existem hoje inúmeros sites jornalísticos especializados em Amazônia. Qual é a importância de se fazer essa cobertura segmentada da floresta?
Iberê Tenório - Amazônia ocupa mais da metade do território brasileiro, é a maior floresta tropical do mundo, guarda boa parte da água potável, da biodiversidade e de outras tantas riquezas. Isso é suficiente para justificar uma cobertura especializada. Mas eu discordo que existam muitos sites focados exclusivamente na Amazônia. O que há são sites ligados ao meio ambiente de forma geral ou sites que reproduzem o conteúdo sobre Amazônia produzido por outros veículos.
Qual é o maior desafio dessa cobertura?
Iberê Tenório - O tamanho e o isolamento da região são o maior desafio. Viajar pela Amazônia é caro e demorado. Além disso, há muitas regiões sem telefone, sem estradas. Para quem está em São Paulo, como eu, é ainda mais difícil. Mas mesmo que eu estivesse em alguma capital amazônica, esses problemas existiriam. Cobrir um fato que ocorreu em Rio Branco estando em Manaus não é muito diferente de fazer a mesma coisa a partir de São Paulo.
É comum ouvir casos de colegas que recebem ameaças ou são perseguidos por cobrir questões nevrálgicas da Amazônia, como garimpo e atividade madeireira? O que relatam esses jornalistas?
Iberê Tenório - Há histórias de ameaças, sim, mas o mais comum são pautas que são deixadas de lado porque os locais são muito perigosos. Cobrir garimpos em Rondônia, desmatamento no sul do Pará ou grilagem na Transamazônica é perigoso. Como os jornalistas que fazem matéria sobre isso em geral não moram nessas regiões, não conheço relatos de perseguições, mas é muito comum saber de pessoas que foram impedidas de entrar em alguns lugares ou que foram “seriamente aconselhadas” a desistirem de suas pautas. Isso é recorrente, e é bem triste, pois a imprensa deixa de denunciar os problemas mais graves.
Onde encontrar boas pautas e boas histórias?
Iberê Tenório - Não há segredo: é preciso ter boas conversas com quem vive na região. Na internet, eu sugiro os blogs. Eles sempre levantam questões que estão fora da pauta dos veículos tradicionais de comunicação.
Que dicas você daria para quem está começando a cobrir Amazônia?
Iberê Tenório - A coisa mais importante é não olhar o mapa da Amazônia como se fosse uma folha de alface. Cada pedacinho daquela região tem povos diferentes, dificuldades diferentes, animais e plantas diferentes e, principalmente, histórias diferentes. A colonização de Mato Grosso, por exemplo, fez com que o estado tivesse características completamente distintas do Pará, que, à primeira vista, é ali ao lado. O Acre, que muita gente brinca que nem existe, é um lugar com uma identidade muito forte, diferente do seu vizinho Rondônia, freqüentemente confundido com Roraima. Entender e respeitar essas peculiaridades é fundamental.
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